Perguntaram-me se eu não tinha medo de nada, se isso era bom.
Não sei se é mau.
Nem bom.
Mas assusto-me ao pensar que um dia posso abrir uma gaveta e encontrar lá deitada vestigios do que fui e se mudou. Que a acção dos homens tenha feito com que o meu avesso se queimasse na fogueira da inquisição de uma normalidade (que não combato), mas sofro.
Assusto-me se chegar a vez de eu não tapar os olhos porque o horror já não incomoda e anestesiada, disser para mim que a vida é isto, vida e morte. Que me assusta muito morrer de olhos abertos e a respirar por intuição.
Mas não tenho medo de ser quem sou, de andar de quatro quando ameaçada, de amar declaradamente quando o sinto. Mil vezes. Sem o recato de mulher séria.
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