28/12/08

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Gosto de provocações. Têm o gosto do estímulo que a chuva dá quando cai fria sobre o rosto, os ombros e pinga na ponta do nariz. Arrepiam, convencem-nos a dar corridas e a esfregar as mãos à espera de um lume que não se vê.


Gosto das provocações que me fazem sem saber que mas dirigem. Porque não são as declaradas como os desafios que me revolvem o interior, são as olhadas, as murmuradas, as que não se proferem e desenvolvem batalhas nos inversos da memória. Passam o filme ao contrário, pedem que rebobinemos a essência do que se foi para captar o que se pode vir a ser.


Provoca-me mas não me avises, não me dês pistas, não te reveles, deixa-me ser eu a descobrir o teu espelho.

27/12/08

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A única ocasião em que sou entendida como normal é quando me desfaço no papel.

26/12/08

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Apanhei-me distraída, distante, o olhar perdido pela janela às voltas com pensamentos do se.


Se.


Chamei-me, não me ouvi, estava demasiado absorvida a ver-me vaguear pelo ar, uma mancha pelo azul, cada vez mais afoita, e se eu fizesse um voo picado? E já eram três de mim: A que me apanhou, a que foi agarrada e a que conseguiu escapar-se. Se.


Se me admoestasse para regressar à terra perdería todo o espectáculo que se tem do alto, perdería o verde dos meus olhos a aguarem-se pela visão de tantos sonhos, perder-me-ía a mim neste avesso libertino que não se confina nos ses.

22/12/08

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Os que de mim são, são tão verdadeiros para mim quanto a medida da desconfiança dos que me olham como sã.

18/12/08

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Por vezes arrecado o que escrevo. Não porque seja mentira, mas porque o exercicio descarregado nas letras me dá alivio e a condição se torna outra. Não mais sentida, não menos válida, apenas alterada, opostos num quase fio.


Depressa me alegro e depressa me entristeço. Não são botões com acção para desligar e reverter as ondas ao contrário, são reacções primitivas que não condeno, não condiciono.


Só não consigo deixar de amar o que amo, a quem amo. De um verso ao inverso. Demora. Arrasta. Arrecada-se.


Nessas alturas não escrevo.

14/12/08

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Riu-se, riu-se muito de mim, por eu dizer o que vía, o que sentía, chamou-me doida e ainda assim eu voltei a dizer o que vía, o que sentía.


Depois, disse-me que eu brincava, não podía estar a falar a sério.


Não posso mostrar o meu avesso. Nem mesmo a quem gosto.

12/12/08

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Perguntaram-me se eu não tinha medo de nada, se isso era bom.

Não sei se é mau.

Nem bom.


Mas assusto-me ao pensar que um dia posso abrir uma gaveta e encontrar lá deitada vestigios do que fui e se mudou. Que a acção dos homens tenha feito com que o meu avesso se queimasse na fogueira da inquisição de uma normalidade (que não combato), mas sofro.

Assusto-me se chegar a vez de eu não tapar os olhos porque o horror já não incomoda e anestesiada, disser para mim que a vida é isto, vida e morte. Que me assusta muito morrer de olhos abertos e a respirar por intuição.


Mas não tenho medo de ser quem sou, de andar de quatro quando ameaçada, de amar declaradamente quando o sinto. Mil vezes. Sem o recato de mulher séria.

08/12/08

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A minha cabeça prega-me partidas. Acende a luz e deixa-me ver em quartos que foram escuros, monstros que se desenrolam e desenvolvem como trepadeiras à volta da minha imaginação.


É o oposto de tudo o que os outros vêem: se a luz se acende, os monstros escondem-se. Ou simplesmente -dizem- nunca lá houve monstros.


Mas eu sei que eles existem. Que estão lá à espera que os acorde e não estou muito certa se se trata mesmo de uma brincadeira que a minha cabeça faça comigo... Afinal, sempre tive outros dentro de mim numa correria de brincar à apanhada, às escondidas, às adivinhas.


Se corro atrás de mim, não sei. Será o inverso do universo dos outros, em que se escondem para não serem apanhados por quem os persegue.

06/12/08

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De quando em vez vejo-o. Os nossos olhos encontram-se, cumprimentam-se, sorriem, doutras vezes uma seriedade aflitiva que faz desviar o olhar para não corar e desatar a fugir para outro lado.


Os nossos olhos apreciam-se. Flirtam, mas pouco. É demasiado puro e demasiado grande apenas para se brincar à cabra-cega.


Há vezes em que os nossos olhos se agarram de tão desesperados, saudosos, apertam-se, beijam-se, confessam o quanto tempo que não se cruzaram.


Houve mesmo um dia em que o nosso olhar se amou. Parecía ser uma despedida, valeu tudo, valeu por todos os relances, embates e piscares que se perderam em vários encontros.


Mas isto é tudo dentro de mim. Nunca falei com o homem que olha o meu olhar.

03/12/08

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Dias de má companhia. Tenho-os. Uma batalha de contrários, parentes pobres de uma esquizo mal amanhada, sou puxada, admoestada, condenada e finalmente mártir de mim.


Não gosto de mártires, de santos.


São comuns mortais a quem alguém favoreceu (de per si e por eles) e se disfarçam de inversos. Mas sem a túnica das perguntas. Não perguntam nada, e se o fazem é retórica. Sabem de antemão respostas, causa-efeito, babas que pendem pelo açucarado que agitam frente à boca e nariz.


Os meus opostos gostam de quando em vez levarem-me à irritação fazendo-se de santos. Chuto-os, esconjuro-os, escorraço-me.