28/01/09

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Dantes ríam-se de mim, até me provocavam e eu sem saber, alimentava a fornalha. Julgava que partilhavam. Não. Era só incompreensão.


Agora compreendo e silencio-me. Do outro lado já não me atiçam, afastam-se, temem. Julgam que me ajudam. Não. Permanece a mesma solidão.


Não pretendo companhia de quem não me entende ou finge por mim a piedade dos diferentes. Ao contrário do que possam imaginar sou feliz com esta solidão, vem um e outro, conversamos, parte, talvez um dia regresse e se não voltar não faz mal, já morou cá dentro de mim.

24/01/09

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

O oposto de mim também está em mim, naqueles que me habitam, nos que fabrico para me fazerem companhia, nos que me acompanham como um leque aberto que me dá consolo, brisa, sussurros quando o avesso me suspira a loucura e eu, duvidosa das suas vidas, da minha também, fecho os olhos e digo que fiquei louca.

20/01/09

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Eu moro por aqui. Ou ali. Num qualquer lugar em que o avesso esconde.


O resto é mundo. Uma pedra que faz peso por cima de mim.

16/01/09

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Depois de eu ir e se tiver que voltar de novo posso escolher quem serei?


É que o regresso na mesma angústia da partilha dos outros que me invadem, da sobrancería de quem me desdenha desviada e da duplicidade do mundo que se racha a mim... Não sei se aguento.


É que me lembrarei sempre de quem sou. E o que me atemoriza é que nesse tempo não saberei de onde. Já o sinto agora.

12/01/09

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Há neste meu universo particular e íntimo uma semelhança cruel com o outro. O verdadeiro, ou o que é supostamente verosímel ao olhos dos outros.


Nem sempre do meu mundo aparece quem eu quero, de quem eu sinto a saudade. Às vezes fecho os olhos e chamo-os, grito por eles, peço-lhes que apareçam para conversarmos.


São geniosos. Armam-se das mesmas virtudes e defeitos das chamadas personagens de carne e osso e mostrando-se surdos aos meus apelos, não se revelam, não aparecem, deixam-me triste a murmurar-lhes o nome e sei que se sentem vitoriosos pela melancolia da distância que cavam entre mim e eles.


Nessas alturas sei que são reais. Eu é que não.

08/01/09

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Agora estás e agora já não estás.
Rompes pelo meu mundo, furas todos os avessos com que me faço mulher, desfrutas dos contrários sabendo-me pasmada ao olhar-te nesse gesto singular.
Depois do feitiço posto, o espaço. Apenas o espaço entre mim e ti, a ausência, sem voz, sem presença, sem sinal.


Imagino-te criado por mim. Mas nem assim sossego.

04/01/09

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Em que ponto da vida é que percebi que ela não se apresentava para mim como para os outros?

Da singularidade da observação, da pouca partilha, do muito de escrever para não me incendiar tenho agarrado mundos paralelos em que apenas uns poucos sobrevivem. Isolados. Os de minha espécie acabam tanto quanto eu por se camuflar num aparente silêncio, escudo. A minoria que cohabita nos seus eus mostrados tem igualmente o temor do dedo apontado.

Eu aprendi a gerir os gritos, os risos, as chacotas. Já não os estranho, assumo-os o que leva inevitavelmente a terem algum receio de mim, das minhas reacções... Acham sempre que a louca vai ter um acto irreflectido, despir-se em plena luz do dia e numa rua de movimento, cantar uma ária do Rigoletto ou atacá-los.

Por vezes, sinto-me só. Tão solitária que nem mesmo os que partilham o meu mundo de inversos cá por dentro me acompanham.