21/06/15

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Recordo-me da sensação daquele beijo como se hoje fosse, uma quebra no pescoço e a ausência total do chão sob os pés, cores e depois tudo branco, um descompasso no peito e de seguida nada, talvez uma náusea mas boa quase como uma vertigem quando se anda num baloiço e se chega lá muito ao alto e um raio de sol bate nos olhos.
 
Foi a primeira vez que fui beijada nos lábios.
 
Depois disso tive beijos muito melhores mas nunca mais tive a experiência daquelas sensações de completo êxtase como daquela vez. Talvez tenha sido a surpresa, porque sabía o que ía acontecer mas não sabía o que ía sentir. Ou talvez tenha sido porque fui eu que fui beijada não um avesso ou um qualquer outro oposto a mim, tão puro e genuíno.
 
A 1ª vez, memorável.
 

01/05/15

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Perguntaram-me que memória tinha eu deste dia. Calei-me à procura da que poderia dar resposta. Lembrei-me de mim segundos antes, da do Ano passado, da garota da minha infância, dos meus que me correm clandestinos em Anos que estou para nascer.
 
Insistiram pela resposta e na gaguez das minhas palavras os olhares arrependeram-se da atenção que me dirigiram, uma insanidade perguntar a quem é louca, mais doido é quem pergunta a doidos, ao contrário de uma lembrança tenho tantos Maios, não ficções de cordel ou fabricações preparadas para conversa de café a entreter horas, mas calo-me e deixo-me caír como pedras no estômago as folhas arrancadas deste 1º dia.
 

20/04/15

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Preciso de alimento e de água como os outros. De sol e do escuro, de rir e de deitar a cabeça para descansar, tudo necessidades primárias como os demais. Lá porque não tenho etiquetas do direito a dizer diferente não quer dizer que não doa, que não precise, que não abra feridas.
 
Hei-de partir como todos. Provavelmente quando me abrirem irá demorar mais tempo até atingir o miolo. Ou talvez não. Se calhar, engano-vos com o avesso.

13/03/15

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Acordei a pensar que me chamavas, talvez um pesadelo te incomodasse. Nada, a tranquilidade dormia contigo. Reparei então na cama cheia, mais de nós dois, mais de muitos, mais de tantos opostos de mim que nem reconheci os rostos feios levando as mãos ao rosto.
 
Pela manhã falaste do meu pesadelo. Que pesadelo, pensava eu que esse era teu, não meu, e ainda assim às claras e de olhos bem abertos tinha eu visto tantos de mim enquanto tu dormias sossegado, olhando-me na crueldade das palavras atiçadas quando se repudia, outros que eu já havia sido, pequena, corrida, troçada, e de novo junto a mim a apontarem-me o dedo e a fazerem-me tão medrosa quanto um tempo escondido que calco para o esquecimento.
 
Não sei se sonho a dormir se ando acordada a regurgitar medos, revisitações inversas a mundos escuros em que a luz do teu ficar ilude-me.
 

03/02/15

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Pedi aos outros que me algemassem, assim não corría o perigo de ser eu a escrever e sob luzes a incidirem no rosto já dilacerado das perguntas insistentes a assinatura da confissão, o papel sem piedade.
 
É claro que mais uma vez nada poderia dar certo, não sendo eu, outro de dentro deste avesso tería de abrir a boca e pior a emenda. Subconscientes. Jardins mais que escondidos onde mato cresce para acobertar as verdadeiras rosas, abriram-se e exibiram toda a sua cor, todo o seu perfume. Todos os espinhos a cravarem-se nos dedos que tiveram a vontade de se lançar para quebrar os pés hirtos que sustêm as minhas rosas.
 
Sangro, a  verdade cheira a sangue embora pareça bonita ao longe.
 

01/01/15

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 Abri um fecho invisível e entrei. Estava escuro, mas como se os olhos habituassem à falta, assim de dentro se alumiou uma fraca chama trazendo ao delimite das mãos espaços e objectos que a breve se tornaram familiares.
 
Avancei silenciosa para não incomodar, estas coisas de trespassar o alheio têm o encantatório da descoberta mas também o respeito de se saber no crime a cometer.
 
Tantas gavetas em vastos armários, muitos cerrados, agrilhoados em aloquetes e teias do tempo, outras semi-abertas ou a isca para que rápido esquecesse cuidados e gulosa, chamariz de tentações. Espreitei, mexi, levantei, cheirei os odores que me fizerem lembrar já ali ter estado, ter sabido, peguei nalgumas folhas caídas pelo chão e mesmo na letra sumida reconheci texto e alma de alguém.
 
Uma forte luz encadeou-me, todo o cómodo se abriu, uma quase dor da facilidade escancarada tocou-me.
Percebi então que tinha entrado dentro de mim, um avesso tão guardado que quase tomei como inimigo.