30/11/08

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Em vez da água saír invisivel para o céu era muito mais bonito que as nuvens nascessem do mar e ficassem penduradas, a boiar, devagarinho, e só à noite se instalassem numa cama lá no alto. A lua podía então despir-se na sua intimidade e eu não podería ver-lhe os segredos que me fazem chorar.


É que do pouco que mostro as lágrimas é sempre por estas coisas que não têm voz.

28/11/08

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Tenho vezes em que me apetece ser como os outros, normal como os demais, passar despercebida na multidão, não me olharem de cabeça rodada quando entro nalgum sitio.


Ser tão direita e oposta do oposto que me confundissem com qualquer mulher banal que se cruzasse com os outros.


E olhasse eu para eles, lhes descobrisse os segredos que os forram, os guardasse para mim e logo mais escrevesse: Hoje passou um homem por uma mulher, olharam-se por breves segundos, talvez já se tivessem encontrado, talvez um dia se tivessem deitado lado a lado depois dele ter estado por cima dela penetrada e nos olhos lhe ter tirado toda a vida para ela nunca mais se lembrar de si.

25/11/08

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Há segredos que de tão secretos, tão secretos se tornam públicos e a sua veracidade torna-se inverosimilhança.


Assim sucede com os que sendo os seus autores obrigam a prometer voto de silêncio para todo o sempre. E depois são eles que os revelam, debicando, aqui e ali, ressalvando que mais ninguém sabe.


Memória curta...


Há lá maior contrário que este?

23/11/08

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Não me proponho na senda do oposto nem avanço na vida de mãos no chão e pés ao alto propositadamente.


Vejo inversos onde outros encontram o natural direito.


Talvez eu já tenha nascido com olhos de ver ao contrário, encarcerados nas imagens que se retêm para além do vidro de quem mira e pestaneja e esquece e liberta tudo outra vez. Não me fiz assim nem foi por uma alguma tragédia ou felicidade maior que de um momento para o outro decidi ver o fundo do saco e esquecer a decoração do exterior. Sempre me encontrei encostada no canto do quarto a ver o tecto como o sitio onde danço, há mais espaço, não me embaraço em móveis ou tapetes.


Não serei melhor ou pior que os outros, tão só diferente.

Mas condenam-me, apontam-me, rotulam-me e tantas vezes só, procuro esse refúgio dentro de mim onde caminho a direito e tão igual aos demais.

22/11/08

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Todos os escritos de dor agarram o que de mais puro há no seu miolo.
Podem até trazer raivas, sangue, despeito e pele. Mas são verdadeiros, primários e esse oposto do social confere-lhes a beleza de ser em si o nu do que muitos condicionam, tapando.


Não gosto de capas, não gosto de segredos publicos, não gosto de feridas resignadas.


Gosto de avessos virados ao contrário mostrando o direito do que dilacera e de toda a força que inunda tão mais do que o inverso marejar, contido, venenoso, infeccioso, em doses pequenas que vão tomando por dentro e expelem-se num concentrado fatal.


Gosto do grito quando há injustiça. Do grito quando se atinge a montanha. Do silêncio na despedida. Do silêncio quando digo ama-me.

19/11/08

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O tempo perdeu o ritmo das estações. É o inverso do que conheci e do que me fizeram aprender. É o contrário do outro lado do mundo, como me ensinaram.


Mas se agora é Outono e logo será Inverno, porque não racha o frio e a água se abate?
Será que se perderam pelas margens dos outros oceanos e sopraram o oposto para cá?


É que tenho saudades de quando tudo era certo pelas quatro temporadas mas incerto-me quanto à sabedoria de ter sido o certo naquele tempo e o avesso por agora se mude de direito na Primavera envergonhada e até mesmo neste sol de Inverno que não me arrefece as memórias do que me contaram.

17/11/08

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Se eu fizer o pino o amor escorre de dentro de mim e sai pela boca para não mais voltar?


Ou


Se eu fizer o pino ele apanha o caminho da cabeça e torna-se racional?


A vida é sempre ao contrário.

15/11/08

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Mais uma vez o amor.

Ainda e sempre. Construtivo e destrutivo.


Perco-me nas danças do enamoramento, a das frases meias em que a dedução brilha e tropeça, por vezes, na tradução de códigos muito próprios. Também os olhares, os lentos, os encarados e escancarados, os guardados no peito para à noite se recordar antes de acormecer. No roçar das mãos e no rubor da pele quando se escalda no prazer de sentir as linhas do outro. O desejo. O tanto do desejo pelo que se imagina e empoleira nos lábios.


Do primeiro beijo o sabor. Sabe bem. Sabe especial.


O virar dos avessos e as confissões, primeiro a medo, aos poucos a revelação, um interior cheio de reticências. E do bater descompassado do coração...


Acho que me apaixonei por ti... ainda nem te conhecía. Ainda nem eu sabía.

13/11/08

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De novo o avesso sentado, a ocupar a minha cadeira, a minha mesa, a amachucar a minha almofada entre seios e coração e amor, tu de lado, prazeiroso, encantado nesta melodia que te ensurdece ao meu chamamento.


Não me vês.


Eu de frente para ti, de braços esticados a dizer-te EU, VEM, nada chega para tamanho feitiço do que o oposto que se despe da minha pele.


Penduro-me. Sem amarrotados, sem vincos. Guardo-me para quando estiver na moda.

12/11/08

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Tenho escrito muito sobre o amor.

Não os meus. Esses são secretos e guardo-os para o meu livro privado, o que nunca hei-de escrever.


Escrevo sobre o que ouço, o que observo, o que deduzo, o que me contam, o que eu desejo que acontecesse a quem vejo amar.

Nunca desejei que as coisas dos meus amores acontecessem ao contrário do que aconteceram.
Faría delas personagens dos meus eus, dos meus escritos relatados na ponta dos dedos que não controlo, seríam inversos do inverso e logo não seríam verdades.

10/11/08

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Há uma perversidade no acto de amar.

Se amar é ser livre e ser-se, estar-se, porquê as condenações do afastamento, da traição depois que outros amores aparecem?


Não tive muito amores.
Tive os justos à minha vida.
Porque eram estes que me estavam destinados e outros hão-de chegar, tão belos e tranquilos, tão nutritivos e memoráveis como cada um.
Todos diferentes, sempre, todos amados sempre.


Mas comparar amores é perder o livre que ele nos dá, é condicionarmos o querer e o dar, é tornarmos racional dizer amo-te.
E esta palavra não vem da boca, vem do coração.

09/11/08

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Gosto que me amem furiosamente, não violentamente e a doer na carne, mas fundo, profunda e sentidamente como se fosse o último acto da vida.


Quero sentir tudo: mãos, boca, sexo, coração, olhos, saliva e respiração, sémen, todo o corpo a entrar no meu e o meu a fechar-se no que recebe. E no que dá.

É assim que amo, como os animais, descasco a pele e transfiro a minha identidade para o homem que me toma.


É a ele que amo nesses farrapos de tempo. O tempo não interessa nada nesses momentos, é apenas um caldo onde dois ocupam o seu espaço devido e por direito.


Gosto de amar furiosamente como respiro.

Do oposto haverá a saudade, o vazio, o oco.

Por isso importa que desse amor se faça uma vida inteira e sempre, por cada vez que amo.

07/11/08

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Choro pouco, muito pouco.

Ao contrário da maioria das pessoas as lágrimas salgam-me quando me encontro no topo da montanha da felicidade, do amor, do reencontro.


Até a dor fisica, incontrolável no saco lacrimal, eu sustenho e raras vezes se soltou um fio.


Leva isto à conclusão de ser fria, insensível.

Mas só porque não veem o meu interior alagado, uma tempestade furiosa em que o choro me destrói o peito e o sal me faz arder de tanto magoar.

05/11/08

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Lista de coisas a fazer:


Flores. Muitas flores. Todas pálidas. Só podem enrubescer quando me ouvirem gemer de amor.
Escrever que gosto de ti. Sem nome. Quando perder o tino de vez e achar este papel, vou-te amar. Sejas tu quem fores. Assim não desperdiço o que me incendeia o coração.
Escrever o teu nome no canto da minha aguarela favorita. Dizer que és tu o autor e ma dedicaste.
Não me pintaste porque eu dormía depois de nos termos amado.

03/11/08

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Sabes que me apetecía tanto que me falasses... que me dissesses aquilo que eu já te disse. Não o ouviste, é certo, mas devías suspeitar, é que é muito forte.

Até sonho contigo.
E quando acordo pego na ponta do sonho e driblo o insconsciente, faço-o racional.
Digo: Apaixonei-me por ti.
Tu perguntas: Porquê eu?
Eu não tenho resposta para dar, posso dizer-te: Porque sim.

E fica tudo bem.
Porque sim também é razão.



Hoje apeteceu-me debruçar no parapeito da janela do meu avesso.

01/11/08

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Não sou infeliz.
Tenho até elevados e profundos períodos de felicidade em que me debato para não os exteriorizar.


A felicidade assusta tanto quanto a tristeza.
A 1ª mais aos próprios, a segunda arrasa como uma rajada de metralhadora a eito.


Os meus momentos de tristeza são mesmo isso, momentos, iatos, fragmentos que não provocam feridas nem deixam cicatrizes quelóides na minha felicidade.

Por vezes tento partilhá-los, até explicá-los.

Poucos os entendem, a maioria acha-me drogada ou insana, fraca da cabeça.