23/07/09

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Pedir perdão. Aceitar perdão. Fazer de conta. Recordar. Castigar. Repetir. Condenar-me.


Nomeio-me como o maior eu a perdoar os outros, como a que se flagela por acreditar e já saber e ainda assim aceitar que o perdão não vem do direito nem do avesso, vem do coração.


Guardo o coração. Esqueço o coração. Não tenho coração. Condeno-me a não ser.


E chegam os opostos e ajoelham-se. Entrego-lhes o nosso coração. Volto a ser eu.

19/07/09

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Nos sonhos é sempre fácil. Basta despertar para saír do aperto ou deixar-me ir para que o mundo perfeito seja ao contrário.


Depois existem os pesadelos.


Aqueles que amachucam por serem respirados na realidade da indiferença, do agrupar, do legendar. O grande é aquele em que fazes parte da maioria. Receoso da opção, preferentemente acobardado no que todos acham.


Não fico nem mais triste nem mais sózinha.


Afogo-me.

25/06/09

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A vontade não parte de mim, apresento o que sou, terás de ser tu a querer o tempo para te perderes nos meus opostos sem lutares contra, e a deixares o receio da diferença fora deste espaço, basta a vontade no teu bolso, não queres?





Mesmo que o gritasse já ías longe.





As costas não são encosto, são a surdez que passa.





Vontade e coragem, ter-me ías ouvido cantar.

21/06/09

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Lá, onde fica mais longe, para os lados da minha infância, havía um esconderijo que era só meu. Era aí que mantinha os meus pequenos segredos, algumas conchas de madrepérola, duas pedrinhas de rio e um ramo de pinheiro já seco e quebradiço.


Nunca ninguém soube deste sítio. E no entanto, tão à vista de todos mostrou-se ser secreto o suficiente para conseguir ultrapassar os tempos, incólume a modas e tendências.


De vez em quando ainda lá vou. Fica na lembrança dos meus tempos de férias e de como eu era mais feliz em liberdade.

17/06/09

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Lembro-me, quando criança, que havía um homem a quem chamavam perigoso. Era um mendigo, sujo, mal-cheiroso, como todos os homens que perdem o rumo de si. Falava sózinho, dizíam-me para não me aproximar que me faría mal, era louco.


O meu contrário atraía-se compulsivamente para ele, olhava-o por muito tempo e quando ele olhava para mim eu quase jurava que ele me sorría. Não tinha medo dele.


Escapei da vigilância e cheguei perto. Ouvi-o falar, a responder, não percebía as respostas. Hoje que ouço chamarem-me doida sei as perguntas e tudo faz sentido no mundo do homem perigoso.

13/06/09

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O vosso mundo é tão perfeito, tão perfeito que faz parecer o meu, ao contrário, uma aberração.


Se assim é - que da beleza há poder - como perceber o temor que sentem por este lado de cá? Afronta-vos a minha fealdade, os meus pinos desajustados para encontrar o melhor ângulo no vosso direito tão direito, que verdade vos digo: Se não sabem do contrário como saber da perfeição?

09/06/09

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O sol, a chuva e o sol.
Um pão de água que me alimentou a alma e que me fez saír como um caracol que espreita da sua concha o mundo por onde desliza. A que saiu de mim veio feliz, brincou, guardou a concha na caixa de tesouros. Vi-a reflectida nas manchas de chuva que secavam, uma admiração por se encontrar completa depois de tanto golpe, perguntei-lhe por mim, como estava, quem passou nesses instantes pensou que havía perdido alguma coisa na água suja e quis ajudá-la na procura.
Apontei-me, estou ali, aqui vêem? E afastaram-se sob o perigo de uma mulher que fala sózinha.
Não estou, não sou ermo da imaginação nem coisa fabricada nem o que me vi era inverso da alma, era eu, cosida aos meus avessos e voltada do direito.

05/06/09

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Desembrulhei as experiências da memória e uma dor na barriga, lenta e funda, comeu-me a vontade de devolver o sorriso. Não o engoli, deixei-o na boca como uma bochecha que se esconde cuspida aos olhos dos outros e incapaz de voltar para dentro por ter azedado.


Lembrei-me da primeira vez. E depois da segunda e ainda da terceira em que me vendeste algumas palavras maduras que comi satisfeita, dos risos abertos sem pudor do som e também como os teus olhos me enganaram. Tu não me vías. Ou fui eu que não te vi, achei-te outro, um diferente, um original por dentro e por fora.


Agora quando te encontro olho para dentro de mim à procura daquela que tu querías. Visto-a, mas nunca me deixa sorrir.

01/06/09

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Não quero saber de vocês nem da vossa piedade. Já me chega a que me empurram à força a dos meus avessos. Esses pelo menos têm a condição adiantada de me conheceram por dentro e por fora e por fora não será nunca o vosso mundo, o vosso direito, o vosso universo normal que tanta questão fazem em mostrar-me e vangloriarem-se de que nele nunca terei lugar.
Não o quero. Prefiro-me a vossa louca. Mas não mostrem essa caridadezinha doentia da coitada quando acham que falo sózinha, que escrevo sózinha, que durmo sózinha. Há mais gente na minha cama do que na vossa mesa, há mais amores e dores no meu peito do que palavras generosas na vossa boca.
Não me aceitem. Mas não pretendam insinuar que o fazem por mim.

28/05/09

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Serão os outros de mim bocados de memória que como gavetas se vão abrindo à medida que o tempo passa?


Recordo coisas que pensei nunca ter vivido, não terem passado pela minha existência, não serem minhas. Sei de coisas que nunca tive, artes que sei fazer, homens e mulheres que nunca serei. Sinto dos dois lados, um feminino e masculino que nunca se apaixonarão um pelo outro mas rendem-se ao semelhante como um ser que caminha, se alimenta e sonha.

Deixei de os tentar sufocar, matar até. É que descobri que me fería a mim própria.

24/05/09

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Devería rir-me dos que não me entendem como eles fazem de mim por me acharem louca. O mundo deles é onde vivo mas também o meu, um outro. Eles vivem só no deles e fogem a sete pés do que não querem sequer espreitar ou receiam perder-se, quiçá, ficar como eu. Eles puxam-me para o lado deles, obrigam-me às regras deles, condenam a falta de leis do meu lado e empobrecem tudo o que venha dos meus avessos.


Sou eu mais rica por ser forçada a saber das vielas deles e também das esquinas das minhas ruas?


Não. A verdade é que me perco. Neles e em mim. Mas rio-me. De mim.

20/05/09

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Não tenho a ilusão de que quando for o dia da minha viagem alguém de mim irá ficar por aqui como uma assombração a evitar a todo o custo o branco do esquecimento.


Mas penaliza-me a teoria possível de que possam lembrar mais aos que são de mim do que a mim mesma. Fico triste, não quero ninguém, ocupo o meu canto acocorada, escondo os papéis e amaldiçoo todos os meus inversos.

16/05/09

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Sei que gostas de mim.


Mas a quem preferes?


É cruel e ultrajante sentir-me amante quando sou sempre eu que te quero.


Chamem-lhe loucura, dom, sorte, maldição. Por vezes gostava de sentir a dobra dos direitos e andar sobre linhas marcadas no chão para me orientar, nunca passar os traços amarelos sob o perigo das tonturas.


Vou tentar ser mais eu para que gostes ainda mais de mim. Se não chegar visto-me dos outros. Dos meus avessos.

12/05/09

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Aproveito-lhes a distracção e sento-me e pego no lápis e no papel e quase me convenço de que estou apenas acompanhada de mim. É tudo um logro mas enquanto dura tem o sabor de uma vingançazinha. Daquelas que não faz mal a ninguém. É como se fosse um perna que se estica quando vão a passar e rimos da infantilidade do gesto no tropeção. Achamo-nos espertos, os outros descuidados por não suspeitarem do que lhes iríamos fazer.


Mal ensaio os primeiros pensamentos eles chegam. Vão-me roubando um a um desses pensamentos. Clamam a sua autoria.


No final o lápis está gasto e a folha cheia. Eu estatelada no chão.


(E ainda assim rio.)

08/05/09

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O que é que queres ser quando fores grande? Quem eu?


Achavam que a pergunta que eu dava como inicio de resposta era a indecisão infantil a bailar cá dentro e dividida entre hospedeira, professora, médica, mãe, insuspeitadamente fazíam-no sem ligar ao meu avesso e tão pouco dando azo à credibilidade dos meus opostos. Era eu a quem perguntavam ou eram aos outros que se debatíam para me virar ao contrário e levarem a melhor?


Hoje sou eu que pergunto, que queres ser quando fores grande e respondo-me que quero ser como os outros. Os de mim. Que são tão fortes e poderosos que me mantêm nesta criança a aprender.

04/05/09

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Ali, a meia duzia de passos de mim, ao alcance das minhas mãos. De o ouvir, as minhas certezas. Alguém tão inesperadamente inverso e num mundo de pinos. Um mundo igual ao meu.
Tu existes, não és nenhuma confusão ou um mal-entendido, eu ouvi-te.
As tuas palavras são as repetições das minhas, a simplicidade do que só nós vemos atrofia os demais. Chego junto a ti, toco-te. És real, tens calor, cheiras bem.
Pedes-me desculpa, achas que me pisaste ou me deste um encontrão. Eu sorrio-te, sei que vais reconhecer-me. Mas tu pedes perdão de novo e assustado com o teu reflexo em mim afastas os teus passos e o nosso mundo de mim.
Não consigo chamar-te, sinto-me profundamente triste. Nem sempre sou só por opção.

30/04/09

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Não tenho arcas nem baús nem caixas onde guarde segredos, cartas, mechas de cabelo louro ou flores que secaram com os anos nem as quero.


Lembro-me das coisas importantes porque são as que ainda hoje me fazem falta.


Ao escondê-las nesses alçapões sería forçada a encher a sua capacidade, a pôr coisas por cima de outras, a tapar o mais antigo pela memória mais recente.


Não tenho lembranças velhas nem novas. Tenho as que fui capaz de ganhar.

26/04/09

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É então este o meu contrabando, o meu ouro passado escondido na linha de fronteira onde tenho os pés e o outro lado de lá onde a cabeça e o coração encontram terra e ar e todo o mundo que se cria para me receber sem avessos nem contrários.


Serei o pirata tornado herói, sem demagogias, sem faca nem perna de pau, um mármore rosado que se aconchegou às mãos do escultor, as minhas letras são pedra de mim e de mim o brinco do pirata depois de ter passado o cabo do corno.


Clandestino-me para me tornar real, ganho força para estar no mundo dos homens.

22/04/09

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Apercebo-me dos sinais que fazem, um alerta ao perigo que se aproxima, condescendência para as parcas falas sobre pedidos que só podem vir de alguém muito estranho. Podía aproveitar estes medos e exigir. Ou divertir-me numa vingança de mau pagamento sobre tudo o que raspam de mim. Mas de uma forma ou outra acabo numa pena solitária. Não por mim mas por eles. Que figura tenho eu que tanto assusta?

18/04/09

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Fechei os olhos, não sei por quanto tempo, talvez séculos, talvez segundos. O som da tua voz descreveu o redor, os cheiros, os cascos impacientes dos cavalos à espera, o casal a abandonar a moradia elegante. Deste-lhes falas, eu fiz-te perguntas, pediste-me silêncio que era um momento de muita atenção pela saída do poeta do tasco a ajeitar papéis no braço dorido da pena molhada na tinta da noite fora.


Depois calaste o que riscavas a traço grosso.


E agora, e mais?


Agora se estivesse junto a ti beijava-te.


Abri os olhos e escrevi uma carta a ti de quem nada sei há tanto tempo.

14/04/09

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Os dias de chuva não me aborrecem e os dias de sol não me trazem mais felicidade. Uns de mim gostam, outros empurram-se para a melancolia e tentam arrastar-me. Nuns e noutros escrevo eu sem direito a companhias ou conselhos. Mas há dias em que não tenho direito a dizer o meu nome e tal como as personagens de carne e osso que me amarrotam no escárnio assim os de mim o fazem. Por tão bem me conhecerem fazem-no da mais vil forma: Chamam-me desigual.

10/04/09

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A que se lê e a que se sente o calor da mão é a mesma. Porém outra. Esse é o mistério: Não haver mistério. Ser real tanto ou mais do que as palavras escritas.


Se se lê essa verdade então onde está o mistério?


Na virtualidade do calor da mão, na imagem que se procura nunca descobrir. E no entanto, procura-se, quer-se, lê-se.

06/04/09

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Se me acusas de não saberes quem encontras assim eu te digo que também me custa abraçar o que chega à procura de outra.

É que a medida do que esperas de mim não tem pauta nem regra nem valor que não seja o que me tocas realmente. Esse fundo que achas por alcançar mais não é do que a superficie dos meus opostos, como o mar, que sendo todo da mesma água, uma vez se enruga para os descobrimentos e de outras se amansa para o delirio do banho.


Terás tu alguma vez tido a coragem de te molhares em mim?


(Não respondas, prefiro o silêncio... Assim os inversos revertem a dúvida no verso e fica tudo menos feio).

02/04/09

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A minha diferença, mesmo pela boca de outros, afasta a consciência do meu doer.
Por vezes faço de conta que não há razão para tanto sangue, tanta ferida.
Só depois me lembro dos outros que me habitam, de como aumentam a dor numa amálgama que pesa no peito.

É assim nas despedidas.

É assim nas saudades.

29/03/09

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Olha para mim e vê de todas as vezes aquilo que já viste porque sou mesmo assim.


Se achas que já conheces tudo de mim é porque apenas piscaste o olho ao meu contrário, do avesso tiveste resguardo e dos meus opostos nem mesma eu os desvendo todos.


Por isso, olha para mim, mas não me atravesses como se fosse transparente. Também não desvies o olhar como se fosse parede, procura, se não procurares fecho eu os olhos.

25/03/09

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Qual verdade?

A minha ou a dos meus outros? A deles a replicada dos meus sentires, da minha emoção, da minha fragilidade em exibir a verdade da verdade, ou tão só, ser assim descurada de escudos que me protejam de mim mesma...


Há vezes em que faço perguntas. Mas o meu temor é por adivinhar as respostas. Saber que são mentiras.

21/03/09

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Mandei-os embora, sentarem-se, deixarem-me sózinha na intimidade de mim mesma.

Não me deram importância, discutimos, tantos contra mim, hoje quero ficar só e sem a vossa companhia, ser apenas uma mulher banal sem contínuo desafio com os avessos, aversos, antónimos, consciências suplentes que tiram o sossego e que me fazem rir e chorar e parecer louca por mais ninguém vos ver e ouvir.


Perseguiram-me. Copiaram os meus gestos, a minha tosse, a minha imagem que olhei no espelho.


O contrário do que se vê sou eu. A direita parece a esquerda e assim sendo o coração pode estar no lado onde não está.


Mas eles estão, apenas brincam comigo às escondidas do reflexo. Acabam sempre por me fazer sorrir. Fiquem. Que sería de mim sem vocês...

17/03/09

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A aflição de criança no jocoso apontar e na malignidade inata não me trouxe traumas até aqui.
Aprendi a conviver, a calejar-me e a não me perturbar com essa continuidade que me atiram às costas como um manto que se arrasta trazendo poeira, pedras, lixo. Tão pouco se tornou pesado, alivia-se a experiência pelo deixar de importar...


Outra aflição sim, esta dolorosa e incompreensível pelo gozo orgasmático na forma como os grandes proferem saboreando, que a maligna sou eu. Sirvo-lhes de sobremesa.


Eu só quero ser eu.

13/03/09

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Entre o querer muito ver de uma vez e o fazer durar o momento, opostos que alimentam os segundos e não os gastam. É um orgia de sentimentos, emoções, rubor na face, frio na barriga, adivinhas saciadas e surpresas insuspeitas.

Eu estou ao meio. Aperto-me no meio.


E acho que se fechar os olhos e desejar muito, materializa-se a vontade.
Se fechar os olhos e desejar muito, nada será mostrado como esperado.


Estou no meio de gritos que pedem o silêncio, diz mas não com palavras, insinua mas não te mostres.
O meu avesso aprecia a dor desse meio, o meu inverso procura as espias que cravam positivo/negativo, dão luz às minhas noites. No meio está o coração.

09/03/09

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Uns quantos demoram alguns minutos das suas vidas a olhar. Não fazem comentários, engolem para dentro de si uma piedade triste e solitária pela minha aparente solidão e tristeza. Seguem caminho levando para as suas vidas o momento em que me olharam nos olhos e projectam-no num futuro envelhecido por uma loucura que me há-de atacar mais forte do que a que já possuo. Por agora recomendam aos mais novos que não se acerquem de mim nem me ofereçam respostas quando lhes estico uma flor arrancada do chão. Não se deve falar com estranhos. Ainda menos com uma mulher que vem para a rua quando chove a cântaros ou abre a janela de casa quando a trovoada se ouve. Ou quando assobía aos pássaros nos telhados ou chega no final de um dia de Verão de sapatos pendurados no ombro.Uns quantos nunca hão-de perceber que por vezes sou mesmo muito feliz.

05/03/09

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Se os outros não têm entendimento para mim que veleidade sería eu afirmar perceber o que os outros de mim são. E acho-me neste constrangimento de ser tão comum e condenatória perante os que fabrico como aqueles que respirando o mesmo ar que eu se acham no direito de me apontar o dedo como estranha, como desviada, como louca.


Mas os universos são diferentes, a rota que perseguem afasta-os diametralmente.


Eu não entendo os meus eus na totalidade mas recebo-os. Os outros não me querem nem pretendem usar de tempo para alcançar distância da ignorância que me atiram. Não sou eu que colido com o mundo deles, tão pouco os meus de mim que os pelejam; São mesmo eles que me rotulam e arquivam. Escondem-me.

01/03/09

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Era um gosto grande, não só de pele, de palavras, de adivinhas. Era um gosto daqueles de apertar, de sentir-se as mãos do gostar a envolver, sem perguntas sobre o futuro nem tristezas súbitas sobre o se.


Era um gosto tão grande que quase lhe deu medo. Antes de chegar ao medo, deixou as mãos esfriarem e eu vi que os opostos não são todos meus.

25/02/09

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Sou inconstante. Aborreço-me com alguma facilidade perante leis e regras, perante pessoas que sei de antemão o que vão dizer e como agir. Espero sempre enganar-me, desconhecer-me, para não sentir aquele fio do esmorecer como um pavio que embora incandescente já não alumía.


É neste contrário que traço as maiores diferenças entre os demais. Os outros gostam de saber com o que contar, ter a segurança de chegar a horas e nunca descarrilarem pelas surpresas.


A mim aborrece-me, mata-me lentamente e engole-me ainda mais nos meus avessos.


Nessas alturas escrevo a mim. Aos que tiro a mordaça. Canto.

21/02/09

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Daquela vez e só daquela vez as pernas estorvaram o resto do corpo. Pô-las de parte. O muro era tão alto que nem mesmo o pensamento construído mais rápido conseguía ter pernas para andar e saltar e matar a curiosidade de ver o outro lado.
Cegou as pernas.
Não há o que ver quando o cego o quer ser.

17/02/09

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Eu assusto.

Tu assustas-te (comigo).

Vós tendes medo (de mim).


Podería conjugar este verbo sem fugir à verdade magoada de que o que é diferente impele os outros à fuga, ao olhar escondido, mas à vontade comichosa de saber o que faz, o que diz, como vive aquele outro que afinal nem tem quatro olhos, uma cauda, mãos com um gancho ao invés de dedos. Que surpresa! Tão semelhante, quase humano...


Quase.


E é neste quase que o meu avesso os espanta, os assusta e fá-los de mim ghetto.

13/02/09

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Houve um tempo que não perdi na minha memória e porque foi cruel em que me tentei emendar.
Emendar-me do que sou, do que vivo neste inverso dos outros.

Tal como os canhotos, amarrei o meu lado do avesso, manietei-me para funcionar com o que me dizíam ser o certo, o correcto, o direito.



Mas porque nunca fui de lá limitei-me a imitar o que vía.

Fiquei sem saber, sem olhar, só respirava o que era de outrém e sufoquei nos meus opostos, deixei de ser verdade, uma anormal a dar aos braços para não caír no fundo do penhasco.



E só mesmo quando me atirei para fugir do que me queríam fazer é que magoada, tive a certeza da minha liberdade.

09/02/09

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Abri o livro e li. Para dentro de mim, para que as palavras se entornassem da minha garganta muda para o interior e se misturassem nos fluidos, no sangue, nos outros eus que numa espécie de placenta se acomodam e nascem de sua vontade.


Fiquei bem, ficaram felizes.


Depois li dando tom à voz, para que esta não se esqueça dos gritos, das exclamações, dos sopros. E os que andam fora deste avesso ouviram calados.


Abri o livro e não tinha nada escrito. Inventei para mim e por eles.

05/02/09

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Diz.
Que não te mete medo a minha diferença. Que não acreditas naquilo que me chamam. Que não te importas de acompanhar comigo e com as minhas estórias. Que não há avesso que não tenha avesso.
E se o conseguires dizer é porque é verdade.
E se é verdade não será preciso dizer nada.

01/02/09

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Dize! Sem poupanças nem rendados, eu aguento, mesmo que seja o lado direito a receber a pancada sempre há-de entornar-se para o inverso, a submersão não me assusta nem me ofende, afinal eu sou ilha de mim mesma.


Mas diz à séria e em definitivo, o oposto é tratar mal o que te mostrei.

28/01/09

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Dantes ríam-se de mim, até me provocavam e eu sem saber, alimentava a fornalha. Julgava que partilhavam. Não. Era só incompreensão.


Agora compreendo e silencio-me. Do outro lado já não me atiçam, afastam-se, temem. Julgam que me ajudam. Não. Permanece a mesma solidão.


Não pretendo companhia de quem não me entende ou finge por mim a piedade dos diferentes. Ao contrário do que possam imaginar sou feliz com esta solidão, vem um e outro, conversamos, parte, talvez um dia regresse e se não voltar não faz mal, já morou cá dentro de mim.

24/01/09

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O oposto de mim também está em mim, naqueles que me habitam, nos que fabrico para me fazerem companhia, nos que me acompanham como um leque aberto que me dá consolo, brisa, sussurros quando o avesso me suspira a loucura e eu, duvidosa das suas vidas, da minha também, fecho os olhos e digo que fiquei louca.

20/01/09

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Eu moro por aqui. Ou ali. Num qualquer lugar em que o avesso esconde.


O resto é mundo. Uma pedra que faz peso por cima de mim.

16/01/09

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Depois de eu ir e se tiver que voltar de novo posso escolher quem serei?


É que o regresso na mesma angústia da partilha dos outros que me invadem, da sobrancería de quem me desdenha desviada e da duplicidade do mundo que se racha a mim... Não sei se aguento.


É que me lembrarei sempre de quem sou. E o que me atemoriza é que nesse tempo não saberei de onde. Já o sinto agora.

12/01/09

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Há neste meu universo particular e íntimo uma semelhança cruel com o outro. O verdadeiro, ou o que é supostamente verosímel ao olhos dos outros.


Nem sempre do meu mundo aparece quem eu quero, de quem eu sinto a saudade. Às vezes fecho os olhos e chamo-os, grito por eles, peço-lhes que apareçam para conversarmos.


São geniosos. Armam-se das mesmas virtudes e defeitos das chamadas personagens de carne e osso e mostrando-se surdos aos meus apelos, não se revelam, não aparecem, deixam-me triste a murmurar-lhes o nome e sei que se sentem vitoriosos pela melancolia da distância que cavam entre mim e eles.


Nessas alturas sei que são reais. Eu é que não.

08/01/09

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Agora estás e agora já não estás.
Rompes pelo meu mundo, furas todos os avessos com que me faço mulher, desfrutas dos contrários sabendo-me pasmada ao olhar-te nesse gesto singular.
Depois do feitiço posto, o espaço. Apenas o espaço entre mim e ti, a ausência, sem voz, sem presença, sem sinal.


Imagino-te criado por mim. Mas nem assim sossego.

04/01/09

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Em que ponto da vida é que percebi que ela não se apresentava para mim como para os outros?

Da singularidade da observação, da pouca partilha, do muito de escrever para não me incendiar tenho agarrado mundos paralelos em que apenas uns poucos sobrevivem. Isolados. Os de minha espécie acabam tanto quanto eu por se camuflar num aparente silêncio, escudo. A minoria que cohabita nos seus eus mostrados tem igualmente o temor do dedo apontado.

Eu aprendi a gerir os gritos, os risos, as chacotas. Já não os estranho, assumo-os o que leva inevitavelmente a terem algum receio de mim, das minhas reacções... Acham sempre que a louca vai ter um acto irreflectido, despir-se em plena luz do dia e numa rua de movimento, cantar uma ária do Rigoletto ou atacá-los.

Por vezes, sinto-me só. Tão solitária que nem mesmo os que partilham o meu mundo de inversos cá por dentro me acompanham.