28/05/09

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Serão os outros de mim bocados de memória que como gavetas se vão abrindo à medida que o tempo passa?


Recordo coisas que pensei nunca ter vivido, não terem passado pela minha existência, não serem minhas. Sei de coisas que nunca tive, artes que sei fazer, homens e mulheres que nunca serei. Sinto dos dois lados, um feminino e masculino que nunca se apaixonarão um pelo outro mas rendem-se ao semelhante como um ser que caminha, se alimenta e sonha.

Deixei de os tentar sufocar, matar até. É que descobri que me fería a mim própria.

24/05/09

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Devería rir-me dos que não me entendem como eles fazem de mim por me acharem louca. O mundo deles é onde vivo mas também o meu, um outro. Eles vivem só no deles e fogem a sete pés do que não querem sequer espreitar ou receiam perder-se, quiçá, ficar como eu. Eles puxam-me para o lado deles, obrigam-me às regras deles, condenam a falta de leis do meu lado e empobrecem tudo o que venha dos meus avessos.


Sou eu mais rica por ser forçada a saber das vielas deles e também das esquinas das minhas ruas?


Não. A verdade é que me perco. Neles e em mim. Mas rio-me. De mim.

20/05/09

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Não tenho a ilusão de que quando for o dia da minha viagem alguém de mim irá ficar por aqui como uma assombração a evitar a todo o custo o branco do esquecimento.


Mas penaliza-me a teoria possível de que possam lembrar mais aos que são de mim do que a mim mesma. Fico triste, não quero ninguém, ocupo o meu canto acocorada, escondo os papéis e amaldiçoo todos os meus inversos.

16/05/09

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Sei que gostas de mim.


Mas a quem preferes?


É cruel e ultrajante sentir-me amante quando sou sempre eu que te quero.


Chamem-lhe loucura, dom, sorte, maldição. Por vezes gostava de sentir a dobra dos direitos e andar sobre linhas marcadas no chão para me orientar, nunca passar os traços amarelos sob o perigo das tonturas.


Vou tentar ser mais eu para que gostes ainda mais de mim. Se não chegar visto-me dos outros. Dos meus avessos.

12/05/09

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Aproveito-lhes a distracção e sento-me e pego no lápis e no papel e quase me convenço de que estou apenas acompanhada de mim. É tudo um logro mas enquanto dura tem o sabor de uma vingançazinha. Daquelas que não faz mal a ninguém. É como se fosse um perna que se estica quando vão a passar e rimos da infantilidade do gesto no tropeção. Achamo-nos espertos, os outros descuidados por não suspeitarem do que lhes iríamos fazer.


Mal ensaio os primeiros pensamentos eles chegam. Vão-me roubando um a um desses pensamentos. Clamam a sua autoria.


No final o lápis está gasto e a folha cheia. Eu estatelada no chão.


(E ainda assim rio.)

08/05/09

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O que é que queres ser quando fores grande? Quem eu?


Achavam que a pergunta que eu dava como inicio de resposta era a indecisão infantil a bailar cá dentro e dividida entre hospedeira, professora, médica, mãe, insuspeitadamente fazíam-no sem ligar ao meu avesso e tão pouco dando azo à credibilidade dos meus opostos. Era eu a quem perguntavam ou eram aos outros que se debatíam para me virar ao contrário e levarem a melhor?


Hoje sou eu que pergunto, que queres ser quando fores grande e respondo-me que quero ser como os outros. Os de mim. Que são tão fortes e poderosos que me mantêm nesta criança a aprender.

04/05/09

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Ali, a meia duzia de passos de mim, ao alcance das minhas mãos. De o ouvir, as minhas certezas. Alguém tão inesperadamente inverso e num mundo de pinos. Um mundo igual ao meu.
Tu existes, não és nenhuma confusão ou um mal-entendido, eu ouvi-te.
As tuas palavras são as repetições das minhas, a simplicidade do que só nós vemos atrofia os demais. Chego junto a ti, toco-te. És real, tens calor, cheiras bem.
Pedes-me desculpa, achas que me pisaste ou me deste um encontrão. Eu sorrio-te, sei que vais reconhecer-me. Mas tu pedes perdão de novo e assustado com o teu reflexo em mim afastas os teus passos e o nosso mundo de mim.
Não consigo chamar-te, sinto-me profundamente triste. Nem sempre sou só por opção.