moro em mim sem avesso nem direito. o resto do mundo é pedra dura em que me deito. e, ao desconforto que a pedra me daria oponho a beleza, livre, da minha fantasia.
viro as costas ao peso que qualquer pedra faz e vou-me embora sem olhar para trás.
"…Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida-real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar." Pessoa a Casais Monteiro, Carta
1 comentário:
moro em mim
sem avesso nem direito.
o resto do mundo
é pedra dura
em que me deito.
e, ao desconforto
que a pedra me daria
oponho a beleza, livre,
da minha fantasia.
viro as costas
ao peso
que qualquer pedra
faz
e vou-me embora
sem olhar
para trás.
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