Abri um fecho invisível e entrei. Estava escuro, mas como se os olhos habituassem à falta, assim de dentro se alumiou uma fraca chama trazendo ao delimite das mãos espaços e objectos que a breve se tornaram familiares.
Avancei silenciosa para não incomodar, estas coisas de trespassar o alheio têm o encantatório da descoberta mas também o respeito de se saber no crime a cometer.
Tantas gavetas em vastos armários, muitos cerrados, agrilhoados em aloquetes e teias do tempo, outras semi-abertas ou a isca para que rápido esquecesse cuidados e gulosa, chamariz de tentações. Espreitei, mexi, levantei, cheirei os odores que me fizerem lembrar já ali ter estado, ter sabido, peguei nalgumas folhas caídas pelo chão e mesmo na letra sumida reconheci texto e alma de alguém.
Uma forte luz encadeou-me, todo o cómodo se abriu, uma quase dor da facilidade escancarada tocou-me.
Percebi então que tinha entrado dentro de mim, um avesso tão guardado que quase tomei como inimigo.
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